De Volta a Casa

Escritos

Escrever facilita-me a expressão do Ser. Esta é uma necessidade. Aqui poderás ler-Me. Aqui poderei tocar o teu coração.

Todos os textos são autorais

Era uma vez uma menina

Quando fazes "as pazes" contigo fazes com o mundo inteiro!

Mia casou-se!

"A liberdade que procuramos é a liberdade de sermos nós próprios, de nos expressarmos."

Era uma vez uma menina

Ela saiu de casa pela manhã e, quando quis voltar, não encontrou o caminho de volta… Porém, ela não se apercebeu desta condição de "perdida"! Naturalmente foi-se adaptando e continuou andando.

Mas o que aconteceu? Porque se perdeu?! Fez tantas vezes o mesmo caminho!! Verdade, mas a repetição, a familiaridade com o percurso não significa que ela estivesse plenamente no momento! No modo "piloto automático", ela estava muitas vezes a recordar momentos que já tinham passado ou a fantasiar situações futuras.

Ela tinha uma imaginação fértil (como todas as crianças!) e gostava bastante de ficar a sentir aquelas emoções que os seus "filmes" exageravam, identificando-se com aquelas personagens… perdendo por vezes a capacidade de discernir quem ela era na realidade!

E quem era ela de verdade?! No mais profundo da sua essência ela era pura LUZ e puro AMOR!! Como todas as outras pessoas que existiam à face da Terra! Um SER grandioso, sem idade, que já É e que quer apenas brilhar e expressar-SE!

Assim como uma macieira nunca dará bananas, os seres humanos também só "darão" o que estiver alinhado com as suas próprias sementes. Simples assim! Quase sempre, a confusão começa aqui: quando achamos que temos que ser iguais aos outros. Impossível!! Somos seres únicos, singulares e como tal, incomparáveis!

E naquele dia… a névoa estava mais densa e ela não percebeu qual o caminho a levaria de volta a casa…

Quando fazes "as pazes" contigo fazes com o mundo inteiro!

— Mãe, Mãe!! — Gritava Mia, entrando em casa, esbaforida e correndo até ao quintal onde a sua Mãe estava a lavar roupa no tanque. Jogou-se nos seus braços, aninhando a sua cabecinha junto do peito materno e quase em sussurro proferiu — Obrigada Mãe!… —. Só o calor daquela tarde de Primavera e as peças ainda por enxaguar, fizeram com que descolassem uma da outra.

O que é que tinha acontecido para deixar Mia naquele estado de plenitude, em que só paz e amor coabitavam no seu pequeno corpo e alma? Algo extremamente simples mas que lhe havia "saído da pele"… Fizera "as pazes" com a sua mãe, o mesmo significara… consigo!

Olhando agora para a sua vida, Mia via alguns momentos desenrolando-se como que numa fita de filme… Sentiu que tudo estava certo, e que a montagem e edição não poderiam ter sido de outra forma! Este tinha sido o guião que tinha escolhido representar nesta experiência terrena. Todos os atores, os cenários, as falas tinham sido criteriosamente escolhidos para que ela viesse Ser quem escolheu Ser!

Mia sentiu isto a impregnar-se na sua alma à medida que subia uma amoreira bem grande, já carregada de amoras dulcíssimas, e que ia degustando na escalada, aqui e ali, entre uma esfoladela e outra nos ramos eriçados, enquanto o tom arroxeado tingia os seus dedos e o seu macacão amarelo…

Mia casou-se!

Mia estava agora com a sua BFF (—Best Friend Forever— daquele momento, das suas ainda curtas vidas) a preparar-se para o casamento, o seu casamento! O véu, era um lençol que encontraram num quarto lá de baixo, uma espécie de "quarto de arrumos" que dava para o quintal da casa da BFF. Havia um gatinho que andava por ali, que era da amiga da Mia.

O sentimento era de alguma pressa pois o "noivo" e os convidados esperavam pela "noiva", na Praça, onde decorreria a cerimónia. O vestido de algodão com alcinhas em tons claros; o véu que fora colocado na cabecinha rapada de Mia, pois tinha sofrido uma enfermidade que a levou a cortar "à rapazinho", os seus caracóis cor de azeitona.

Era verão, férias grandes e o "noivo" havia chegado da cidade grande para passar uns dias com os avós. Mais velho do que Mia, era simpático e bastante fraternal com ela. Aliás, ela era até um ano mais nova do que a irmã do futuro "esposo". O noivado tinha sido iniciado noutras férias, e era agora chegado o momento da celebração do matrimónio.

Turumtumtum, turuntuntum, turuntumtun, tum, tum… Na frente, os "noivos" de braço dado. Atrás, a BFF e madrinha, a segurar e a ajeitar o véu. Por último, os restantes convidados: os amigos que se juntavam naquela Praça e brincavam sob o sol quentinho do Alentejo. Ali, naquele lugar no interior do país, os amigos eram a vila inteira! Todos se conheciam, todos andavam na mesma escola e havia sempre um grau de parentesco, ainda que distante, entre todos. Esta condição oferecia um sentido de pertença, de segurança que beneficiava os que estavam entrelaçados.

Voltando ao casamento. Vários metros foram percorridos, se calhar 10, não sei, até que a BFF, também no papel de padre, os declarou Marido e Mulher. Mia não beijou o noivo como manda o protocolo, mas o olhar de brilho esmeralda, com que o agora "cônjuge" foi acarinhado, selou aquele vínculo para todo o sempre!

A seguir veio a Boda e todos brincaram até o sol desaparecer. Na memória longínqua deste acontecimento, Mia do alto dos seus cinco anos tinha tido o seu primeiro casamento, com alguém cuja imagem era etérea, como se de um anjo se tratasse, que lhe acalenta o coração, ainda hoje! A pureza sentida através deste gesto generoso e abnegado, foi uma das sementes que a Vida ofereceu a Mia, e que ela vai replantando aqui e ali… noutros corações.

"A liberdade que procuramos é a liberdade de sermos nós próprios, de nos expressarmos."

Don Miguel Ruíz

— Pois é!… Afinal não sou assim tão livre… — cogitou Mia após a leitura desta parte do livro "As quatro verdades", que estava a devorar "de fio a pavio".

Quantas vezes não calou, engolindo a sua opinião com medo de ir contra o que achava que esperavam ouvir de si; quantas vezes deixou de ter a atitude que o seu coração clamava com receio de ser desadequada; quantas vezes se obrigou a fazer o que a sua alma não pedia com medo de que não gostassem dela… Algumas das situações recordava-se, já outras… estão trancadas a sete chaves e sem acesso permitido! O medo, sempre o medo!

É certo que não tinha a clareza de que estava prisioneira, embora conseguisse identificar os sinais de desconforto que sentiu ao longo da vida e que lhe mostravam que violou a sua autenticidade, em prol de ganhos que alimentavam as personagens que ia interpretando, mas que nunca chegaram a ser nomeadas para o Óscar, tal não era a sua inverosimilhança… Não, não era esquizofrenia! Simplesmente, a farda que Mia envergou para ser amada.

— Agora que estou consciente disto, posso ainda assim, escolher se quero continuar pelo caminho do medo e fazendo de conta Ser quem não Sou! —, dizia ela em tom reflexivo. — Eu não burlei toda a minha Vida, como uma farsa! Não menti nem enganei as outras pessoas! Vivi de acordo com o meu nível de consciência e fiz o melhor que podia, com os recursos que tinha disponíveis dentro de mim. Não há culpas nem culpados! Só aprendizagens. Mas, eu fui o meu pior inimigo.

A desonestidade connosco é como a varicela: começa de mansinho, as "borbulhas" vão-se espalhando, mais e mais… até que a comichão se torna insuportável! Depois os paliativos… Agora, só o auto perdão e a aceitação me guiam ao caminho do Amor e é por aí que eu vou!

Com o semblante tranquilo, Mia agradecia por ter tido acesso a este "material" inconsciente que lhe permitiu aliviar a "mochila", pois foram retirados alguns "pesos" que já não lhe serviam, mas que faziam parte da sua história e como tal, deviam ser acolhidos para que a plenitude se pudesse instalar e germinar.

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